Nem sempre é fácil encarar uma obra abstrata. Muita gente trava diante de um emaranhado de linhas e cores, pensando: “O que isso quer dizer?”. A pressão para “entender” pode paralisar, mas a arte não é um enigma a ser decifrado como um código secreto. Ela precisa ser sentida, vivenciada no corpo e na emoção. As formas geométricas — círculo, quadrado, retângulo, triângulo — carregam sensações e significados universais que ajudam a captar o clima da obra. Não são regras fixas, mas pistas intuitivas, como gestos em uma dança. Saber o que cada uma transmite desperta um olhar mais livre, curioso e atento aos ritmos, forças e tensões dentro da composição, transformando a fruição em uma conversa pessoal com a arte.
O Círculo
O círculo é a forma fechada por excelência, transmitindo equilíbrio, continuidade e uma sensação de totalidade serena. Sem ângulos ou interrupções, ele evoca o movimento perpétuo, como o ciclo das estações ou o pulsar do coração. Representa união e totalidade, sem começo nem fim, simbolizando a eternidade, o tempo cíclico e os processos da vida e da natureza — pense nas rodas zen ou nos planetas girando.
Sem Título – Yolanda Mohalyi, óleo sobre tela, c.i.d. Reprodução fotográfica Iara Venanzi/Itaú Cultural
Nas mandalas hindus e budistas, é o símbolo do self junguiano, um centro interior de centralização e meditação, convidando à introspecção.
Target (ULAE 147) Jasper Johns, Data: 1974, Estilo: Pop Art Género: figurative wikiart.org
Associado ao feminino, à proteção e à energia intuitiva, aparece em obras como os alvos concêntricos de Target (1961), de Jasper Johns, que pulsam com uma quietude hipnótica, ou nas esferas etéreas de Yayoi Kusama, onde o infinito devora o observador.
Narcissus Garden Inhotim -Yayoi Kusama, 1966/2009. Esferas de aço inoxidável, dimensões variáveis. Foto: Daniela Paoliello inhotim.org
Em contextos emocionais, desperta paz e completude, mas um círculo rompido pode sugerir vulnerabilidade ou anseio por unidade.
O quadrado
Já o quadrado é a base primordial, transmitindo estabilidade, segurança e uma confiança inabalável. Seus ângulos retos e lados iguais falam de estrutura firme, como as fundações de um edifício que resiste ao vento.
Kazimir Malevich – Quadrado Negro, 1915. Óleo sobre linho. 79,5 x 79,5 cm. Galeria Tretyakov, Moscovo.
Evoca ordem, lógica e racionalidade, representando disciplina, constância e perseverança — Malevich o elevou ao absoluto em Quadrado Negro (1915), icônico do suprematismo, como um portal para o essencial.
Sem-Título. Agnes Martin, Data: 1963, Estilo: Minimalismo, Gênero: abstrato wikiart.org
Comum em composições que buscam clareza e firmeza, como os grids minimalistas de Agnes Martin, que respiram calma metódica.
Sem Título, 1977- Judith Lauand, óleo sobre tela. Foto de Sergio Guerini.
Porém, o excesso de rigidez pode conotar conservadorismo ou estagnação, como em fachadas corporativas frias ou pinturas que sufocam o fluxo vital. Sensorialmente, gera uma sensação de chão sólido sob os pés, ideal para obras que exploram o peso da existência cotidiana.
O retângulo
Como o quadrado, o retângulo oferece estabilidade e ordem, mas sua proporção alongada introduz um movimento interno sutil, um convite à transição e ao fluxo. É a forma da ponte entre o fixo e o fluido. Representa força, disciplina e segurança, ligada ao planejamento, lógica e construção — Piet Mondrian usou retângulos em suas composições neoplásticas, como Composição com Vermelho, Azul e Amarelo (1930), equilibrando tensão e harmonia.
Composição nº 10 (1939–1942), Piet Mondriaan, óleo sobre tela, coleção particular.
Simboliza pessoas ou processos em transformação, buscando equilíbrio entre firmeza e abertura, como portas entreabertas para o desconhecido.
Metaesquema (1958), de Hélio Oiticica, guache sobre cartão, 68 x 50 cm, Coleção Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, doação Fininvest. Foto Vicente de Mello.
É o equilíbrio entre o concreto e o mutável, a forma da passagem — em arquitetura, pense nos retângulos verticais de janelas góticas, que guiam o olhar para o céu. Emocionalmente, provoca uma sensação de progresso controlado, como um rio canalizado que ainda corre.
O triângulo
O triângulo, por sua vez, é pura energia, direção e dinamismo. Sua ponta afiada aponta, indica caminhos e sugere movimento ascendente ou descendente, como uma flecha lançada no vazio.
“Double Tent” (Tenda Dupla), de Paul Klee, 1923
Com base para baixo, evoca instabilidade ou risco, como um funil de tensão ou queda iminente — Paul Klee explorou isso em triângulos invertidos que dançam no caos. Apontado para cima, simboliza crescimento, força e espiritualidade, representando a trindade (corpo, alma e espírito) e o equilíbrio entre opostos — nas pirâmides egípcias ou em Composição VIII (1923), de Kandinsky, onde impulsiona a alma. Desperta urgência e aspiração, comum em artes que falam de conflito ou elevação, como os triângulos flamejantes de Kazimir Malevich. Sensorialmente, acelera o pulso, criando ritmo e direção na composição.
Composição VIII(1923) de Wassily Kandinsky.
Essas formas não ditam o que a obra “significa” de forma literal, mas revelam o que ela faz sentir: ritmo pulsante, energia contida ou estrutura vibrante. Elas nos guiam para perceber as forças invisíveis — tensão, equilíbrio, fluxo — sem roubar da arte sua liberdade aberta à interpretação pessoal
.
Sem Título, 1986 – Judith Lauand, óleo sobre tela, c.i.e. Foto de Sergio Guerini.
Na próxima vez que encarar uma obra abstrata, esqueça “o que ela quer dizer”. Siga as pistas, mergulhe na sua própria jornada sensorial; pergunte-se: “O que eu sinto quando olho para ela?
Colunistas

Victoria Ferreira D’Almeida
É designer gráfica há dez anos e graduanda em História, com interesse especial na visualidade e na arte brasileira. Idealizadora do projeto Brasil Arte e Significado (@brasilarteesignificado) desenvolve análises visuais, críticas e conteúdos que exploram as conexões entre cultura, iconografia e memória. Sua pesquisa atual dialoga com temas decoloniais, interseções culturais e história social a partir das imagens, unindo prática criativa, estudo acadêmico e divulgação cultural.
Victória Ferreira D’Almeida – pesquisadora de História da Arte brasileira e idealizadora do projeto Brasil, Arte e Significado – @brasilarteesignificado

Gilberto Marques
É artista plástico formado pela FAAP (SP), com especializações em Comunicação Social, Marketing, Produção Cultural e Museus. Residente em São José dos Campos (SP), sua obra explora volume e abstração para evocar sensações de espaço, vazio e presença, refletindo sobre pertencimento, tempo, memória e valor. Desde 2028 atua como Curador independente.
Gilberto Marques – artista visual e curador independente – @gilbertomrc / @naruagaleria

