A história da arte sempre foi apresentada como uma galeria de grandes gênios. Nomes consagrados, movimentos definidos, obras eternizadas. Mas toda galeria tem também suas ausências — e elas raramente são acidentais.
O apagamento histórico funciona como filtro: decide quem entra nos registros e quem fica de fora, o que se preserva, se celebra e se repete. Durante séculos, mulheres foram excluídas das academias, dos ateliês e das narrativas oficiais. Quando conseguiam produzir, eram vistas como exceção, curiosidade ou apêndice de um homem mais legitimado.
No Brasil, não foi diferente.
Quando se fala em arte brasileira, um nome surge quase automaticamente: Tarsila do Amaral. Ícone do modernismo, símbolo de identidade nacional. Mas quantas outras artistas produziram no mesmo período — ou antes, ou depois — sem o mesmo suporte, reconhecimento ou permanência nos livros? Quantas dessas artistas ficaram mesmo fora da moldura?
Revisitar essas trajetórias não se limita à justiça histórica; é um convite a repensar o que chamamos de arte brasileira.
Abigail de Andrade — a ousadia de existir
Abigail de Andrade, autorretrato -1890
Em 1884, Abigail de Andrade fez algo quase impensável para uma mulher no Brasil imperial: conquistou medalha de ouro no Salão Imperial de Belas Artes. Em um ambiente dominado por homens, apresentou 14 trabalhos e dividiu destaque com nomes como Giovanni Battista Castagneto e Georg Grimm.
Enquanto muitas mulheres eram incentivadas a pintar como passatempo elegante, Abigail assumiu a arte como profissão. O crítico Gonzaga Duque reconheceu seu talento e coragem.
A hora do pão, 1889 – Abigail de Andrade
Mas a sociedade carioca foi menos generosa. Seu relacionamento com Angelo Agostini, homem casado, tornou-se escândalo. Com uma filha recém-nascida, mudou-se para Paris, onde enfrentou perdas e dificuldades. Morreu aos 28 anos, interrompendo uma trajetória promissora.
Talento não basta para contar a história de Abigail; ela ousou ocupar territórios que a sociedade tentava manter fechados para ela.
Regina Gomide Graz — Decorativa aos olhos do mundo
Retrato de Regina Gomide Graz – foto Sérgio Guerini.
Séculos depois, outra mulher desafiaria o sistema, desta vez em territórios modernos e inovadores: Regina Gomide Graz.
Regina foi pioneira na tapeçaria moderna no Brasil. Misturou arte, design e artesanato com ousadia, incorporando elementos do art déco e do modernismo europeu sem abandonar referências brasileiras.
Panneau, 1920 – Regina Graz – foto: Romulo Fialdini.
Trabalhou ao lado de Antonio Gomide e do designer John Graz. Mas por muito tempo foi lembrada apenas como “esposa de John Graz”.
Sua produção foi inferiorizada por ser classificada como “decorativa”. Embora moderna e inovadora, sua arte foi reduzida a um rótulo que negava sua verdadeira importância. Como se o trabalho em tapeçaria não pudesse ter a mesma relevância da pintura ou escultura.
O resgate recente revela algo recorrente: muitas mulheres modernistas não foram apagadas por falta de qualidade, mas por ocuparem territórios considerados menores.
Letícia Parente — o corpo como território político
Leticia Parente – foto: autoria desconhecida
Química, professora universitária e pioneira da videoarte no Brasil, Letícia transitava entre laboratório e a câmera VHS.
Em 1975, realizou a obra Marca Registrada, costurando a frase “Made in Brazil” na sola do próprio pé. A imagem é íntima e brutal. O corpo torna-se território marcado pela indústria, pela ditadura e pela colonização simbólica.
Frame de Marca Registrada, de Letícia Parente-1975
Nos anos de censura, cada gesto artístico de Letícia era um ato de resistência. Ela fez do próprio corpo suporte crítico — algo radical para uma mulher naquele contexto.
Maria Lídia Magliani — pintar a mulher negra como centro
Maria Lídia Magliani
Enquanto Letícia questionava corpo e poder na ditadura, Maria Lídia Magliani deslocava o foco para a mulher negra, tornando-a protagonista de sua própria narrativa artística.
Primeira mulher negra formada em Artes Plásticas pela UFRGS, em 1966, Magliani construiu uma obra intensa, marcada pelo neoexpressionismo e por uma investigação profunda do corpo feminino negro.
Sem título, 1980 – Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo, doação do artista. Foto: Reprodução/Site MAM São Paulo.
Suas figuras têm volume, densidade e presença. Elas não se deixam reduzir: ocupam o centro como sujeitos de sua própria narrativa. Em um país que historicamente invisibilizou artistas negras, Magliani deu protagonismo à mulher negra na tela.
Mesmo com mais de cem exposições ao longo da carreira, terminou a vida enfrentando dificuldades financeiras e apagamento institucional. Sua trajetória revela que o reconhecimento ainda é desigual — especialmente quando raça e gênero se cruzam.
Mestra Noemisa Batista — memória que molda o barro
Foto da artesã Noemisa Batista dos Santos na cozinha de sua casa, ao centro se vê Noemisa na janela em Caraí, MG. Foto: Gildo Joaquim Alves de Aguiar Rêgo
E fora dos salões e museus, Noemisa Batista preservava tradições e memória coletiva através da cerâmica.
Nascida no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Noemisa aprendeu a trabalhar o barro observando a mãe. Transformou a cerâmica em narrativa: casamentos, romarias, festas, cenas do cotidiano.
Noemisa, casamento, cerâmica policromada. Foto: autoria desconhecida.
Suas esculturas apresentam grupos em movimento — mulheres que sustentam a família, a fé, a comunidade. Se a história da arte tradicional privilegiou óleo sobre tela e salões oficiais, Noemisa mostra outra genealogia: a da arte transmitida entre mulheres, de geração em geração, fora dos museus centrais, mas profundamente enraizada na cultura brasileira.
Mudança do olhar sobre a arte, reparação e reconhecimento
Revisar a história não se resume a incluir nomes esquecidos em uma lista. Não se trata de ampliar a moldura mantendo o mesmo enquadramento. O que está em jogo é outra coisa: é a forma como olhamos para a produção artística feminina.
Durante séculos, mulheres precisaram lutar para estudar, expor e assinar suas obras. Muitas precisaram trabalhar o dobro — para criar e para sobreviver. Outras tiveram de conciliar arte e sustento, maternidade e produção, resistência e silêncio. A permanência nunca foi garantida; o reconhecimento, menos ainda.
Se algumas conseguiram atravessar o tempo, não foi porque o sistema era generoso — foi porque insistiram apesar dele.
Reestruturar o olhar não se limita a lembrar nomes esquecidos. É reconhecer talento onde o sistema não queria ver, inovação fora dos salões oficiais, potência em territórios considerados menores. A ausência nos livros muitas vezes revela mais sobre quem escreveu a história do que sobre quem a produziu.
O verdadeiro gesto de reparação é mudar o olhar sobre a arte — para que cada esforço, passado e presente, seja finalmente reconhecido.
Colunistas

Victoria Ferreira D’Almeida
É designer gráfica há dez anos e graduanda em História, com interesse especial na visualidade e na arte brasileira. Idealizadora do projeto Brasil Arte e Significado (@brasilarteesignificado) desenvolve análises visuais, críticas e conteúdos que exploram as conexões entre cultura, iconografia e memória. Sua pesquisa atual dialoga com temas decoloniais, interseções culturais e história social a partir das imagens, unindo prática criativa, estudo acadêmico e divulgação cultural.
Victória Ferreira D’Almeida – pesquisadora de História da Arte brasileira e idealizadora do projeto Brasil, Arte e Significado – @brasilarteesignificado

Gilberto Marques
É artista plástico formado pela FAAP (SP), com especializações em Comunicação Social, Marketing, Produção Cultural e Museus. Residente em São José dos Campos (SP), sua obra explora volume e abstração para evocar sensações de espaço, vazio e presença, refletindo sobre pertencimento, tempo, memória e valor. Desde 2028 atua como Curador independente.
Gilberto Marques – artista visual e curador independente – @gilbertomrc / @naruagaleria

