Heitor dos Prazeres, nascido no Rio de Janeiro em 1898, filho de uma família negra vinda da Bahia no pós-abolição, cresceu nos arredores da Praça Onze, região que mais tarde ficaria conhecida como Pequena África. Ali, cultura, religiosidade e sociabilidade eram práticas cotidianas profundamente conectadas. A música, a dança, os ritos e as festas faziam parte da vida doméstica, do convívio comunitário e da formação simbólica daquele espaço.

Heitor dos Prazeres.

A casa da família Prazeres era movimentada. O pai, marceneiro e clarinetista da banda da Guarda Nacional, e a mãe, costureira e doméstica, inseriam o menino em um ambiente onde a arte e os ofícios imperavam. Com a morte precoce do pai, Heitor começou a trabalhar ainda criança, circulando pelas ruas como jornaleiro, engraxate e alfaiate.


Pierrô na Lapa, 1959.

Essa vivência urbana precoce marcaria definitivamente sua produção, tanto musical quanto visual, sempre ancorada no cotidiano da população negra dos subúrbios e favelas cariocas. Uma das figuras centrais em sua formação foi o tio Hilário Jovino, músico e liderança religiosa, responsável por introduzi-lo nas casas das tias baianas, especialmente a de Tia Ciata. Esses espaços funcionavam como núcleos de organização cultural, religiosa e política da comunidade negra carioca. Foi ali que se estruturaram as bases do samba urbano do Rio de Janeiro, em diálogo direto com os cânticos e ritmos do candomblé.

Terreiro de Umbanda, 1959

Heitor, iniciado ainda jovem no candomblé, foi confirmado Ogã Alabê-Nilu no terreiro de Tia Ciata, função responsável pelo toque e pelo canto ritual. Essa iniciação organiza sua forma de compreender o samba como prática coletiva.

Heitor dos Prazeres e sua gente –  Macumbas and Candombles – Cover Art-1958.

A relação de Heitor com a religiosidade de matriz africana é temática, funcional e estrutural. O ritmo, o canto e o corpo que organizam o samba têm origem direta nesse universo litúrgico. Essa conexão se tornou pública em 1936, quando Heitor organizou, pela Rádio Tupi, a transmissão de pontos de macumba entoados por Pai Alufá.

Além da apresentação musical, o evento foi também um gesto pedagógico e político. Heitor explicava ao público o significado dos pontos cantados e seus sentidos dentro da liturgia das macumbas cariocas. A transmissão alcançou outros países da América do Sul e contou com a presença de políticos, diplomatas e membros da alta sociedade, incluindo Assis Chateaubriand. Levar a musicalidade do candomblé para o rádio, para a rua e para o palco era ampliar sua potência coletiva e expandir a cultura além de seu centro.

Sua atuação na formação das primeiras escolas de samba se insere nesse mesmo movimento. Mangueira, Portela e Estácio de Sá surgem como agremiações carnavalescas, e também como formas organizadas de expressão cultural negra em um Brasil que buscava construir uma identidade nacional moderna. Nesse contexto, o samba opera como estrutura social, musical e visual. Essa lógica atravessa também a produção pictórica de Heitor dos Prazeres, desenvolvida de forma mais sistemática a partir do final da década de 1930.

Samba no Canavial, 1950.

Autodidata, frequentemente associado à arte naïf, Heitor construiu uma pintura marcada pela bidimensionalidade, pelas cores vibrantes e pelo ritmo interno das cenas. Crianças brincando, rodas de samba, bailes, festas populares e rituais aparecem como temas recorrentes. Os corpos dançam, os instrumentos surgem como extensões do gesto e os ambientes se esvaziam de móveis para dar lugar ao movimento. Suas pinturas representam o samba, e ao mesmo tempo parecem organizadas por ele. Com o ritmo como própria composição, perceptível na repetição das figuras e na forma como os corpos ocupam o espaço pictórico.

Carnaval -1964

A música atravessa a imagem, assim como a imagem atravessa a música em completude. Ao longo da vida, Heitor transitou entre esses campos com naturalidade. Compôs cerca de trezentas canções, criou figurinos, desenhou  cenários, liderou grupos musicais e coreográficos, trabalhou em rádios e cassinos, além de manter intensa produção pictórica. Sua atuação foi reconhecida ainda em vida.

Em 1951, recebeu o terceiro prêmio de pintura na Bienal de São Paulo com a obra Moenda. No ano seguinte, integrou a representação brasileira na Bienal de Veneza. Suas obras passaram a circular por exposições no Brasil e no exterior e hoje fazem parte de acervos de instituições como o MoMA, o Centre Pompidou, o Reina Sofía, o MASP, o MAR e o Museu Afro Brasil. Esse reconhecimento institucional, no entanto, não desloca o centro de sua obra. Heitor nunca abandonou o compromisso com a cultura negra, com as religiões de matriz africana e com o cotidiano popular que moldou sua trajetória

Roda de samba – 1963

Sua produção expressa, de forma festiva e afirmativa, uma fé vivida e compartilhada, presente tanto na música quanto na pintura e no figurino. A escolha de Heitor dos Prazeres como enredo da Unidos de Vila Isabel para o Carnaval de 2026 se insere justamente nessa continuidade. Não como uma homenagem tardia, mas sim como reconhecimento de um legado que permanece vivo. Ao levar o samba, a religiosidade e o corpo negro para as ruas, para os palcos, para as telas e para os museus, Heitor ajudou a construir uma linguagem visual e sonora profundamente brasileira. Uma linguagem que segue estruturando imaginários, ritmos, visualidades e o nosso orgulho.

Colunistas

Victoria Ferreira D’Almeida

É designer gráfica há dez anos e graduanda em História, com interesse especial na visualidade e na arte brasileira. Idealizadora do projeto Brasil Arte e Significado (@brasilarteesignificado) desenvolve análises visuais, críticas e conteúdos que exploram as conexões entre cultura, iconografia e memória. Sua pesquisa atual dialoga com temas decoloniais, interseções culturais e história social a partir das imagens, unindo prática criativa, estudo acadêmico e divulgação cultural.
Victória Ferreira D’Almeida – pesquisadora de História da Arte brasileira e idealizadora do projeto Brasil, Arte e Significado  – @brasilarteesignificado

 

Gilberto Marques

É artista plástico formado pela FAAP (SP), com especializações em Comunicação Social, Marketing, Produção Cultural e Museus. Residente em São José dos Campos (SP), sua obra explora volume e abstração para evocar sensações de espaço, vazio e presença, refletindo sobre pertencimento, tempo, memória e valor. Desde 2028 atua como Curador independente.
Gilberto Marques – artista visual e curador independente – @gilbertomrc / @naruagaleria