Capa: Alfredo Volpi trabalhando em seu ateliê no bairro do Cambuci, São Paulo.Foto: autor desconhecido

O meio do ano chega e, com ele, a expectativa pelas festas juninas: as comidas, as fogueiras e o gesto quase instintivo de olhar para cima para admirar as cores das bandeirinhas. Nesse cenário, o resgate de Alfredo Volpi torna-se inevitável. É o óbvio que precisa ser dito, mas que muitas vezes mascara a verdadeira dimensão de sua obra, reduzindo um dos maiores pintores do século XX a um rótulo puramente folclórico. Ignorar a complexidade silenciosa de sua pintura é perder o que Volpi tem de mais inquietante.

[Bandeiras e Mastro], 1970 Alfredo Volpi – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.

Nascido na Itália e criado em São Paulo, Volpi trilhou um caminho distante do academicismo. Sua experiência como pintor-decorador de afrescos e murais moldou sua relação com a matéria pictórica. Nos anos 1940, ele abandonou a tinta a óleo pela têmpera, técnica que utiliza gema de ovo e confere às telas um aspecto fosco e seco. Em vez de criar uma “janela” para outra realidade, a têmpera ressalta a presença corpórea do pigmento, fazendo a cor pulsar diretamente na superfície.

Reprodução fotografica Horst Merkel [Bandeirinhas], 1960 Alfredo Volpi – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.

Reprodução fotografica Horst Merkel [Bandeirinhas Geométricas], 1950 Alfredo Volpi – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira

Essa mudança técnica acompanhou uma transição conceitual: as paisagens literais deram lugar a composições reconstruídas pela memória. Fachadas, mastros e telhados tornaram-se estruturas de um jogo visual onde a bandeirinha surge como um “detalhe cheio, porém vazio”. Muitos críticos apontam que Volpi nunca pintou o objeto em si, mas o usou como um pretexto para o exercício puro da pintura. Ao repetir triângulos e trapézios exaustivamente, ele esvazia o sentido festivo do símbolo, convertendo o enfeite de arraial em uma unidade de cor e luz que nos convoca ao silêncio, e não à folia.

Fachada azul e terra com bandeirinhas, 1959 Alfredo Volpi – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira

Por isso, não há multidão ou música em suas telas; a presença humana desaparece para dar lugar a um tempo desacelerado. O próprio artista fascinava-se com o silêncio das ruas decoradas antes do início das comemorações, quando os mastros ocupavam o espaço em pura expectativa. Sua pintura habita esse entre-lugar: uma geometria que não é rígida, mas “gasta pelo tempo” e carregada de vivência.

Fitas vermelhas, 1962 Alfredo Volpi – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira

Foto de Romulo Fialdini, 1950 Alfredo Volpi – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira

É aqui que encontramos a “melancolia de fim de festa”. As cores esmaecidas e sobrepostas exigem um processo de rememoração, como a sensação de observar um pátio vazio após a celebração. As bandeiras continuam lá, estáticas, mas o som cessou. O que resta é o ritmo silencioso das formas e a vibração de um Brasil que Volpi soube traduzir sem clichês, transformando o banal em algo essencialmente poético.

Colunistas

Victoria Ferreira D’Almeida

É designer gráfica há dez anos e graduanda em História, com interesse especial na visualidade e na arte brasileira. Idealizadora do projeto Brasil Arte e Significado (@brasilarteesignificado) desenvolve análises visuais, críticas e conteúdos que exploram as conexões entre cultura, iconografia e memória. Sua pesquisa atual dialoga com temas decoloniais, interseções culturais e história social a partir das imagens, unindo prática criativa, estudo acadêmico e divulgação cultural.
Victória Ferreira D’Almeida – pesquisadora de História da Arte brasileira e idealizadora do projeto Brasil, Arte e Significado  – @brasilarteesignificado

 

Gilberto Marques

É artista plástico formado pela FAAP (SP), com especializações em Comunicação Social, Marketing, Produção Cultural e Museus. Residente em São José dos Campos (SP), sua obra explora volume e abstração para evocar sensações de espaço, vazio e presença, refletindo sobre pertencimento, tempo, memória e valor. Desde 2028 atua como Curador independente.
Gilberto Marques – artista visual e curador independente – @gilbertomrc / @naruagaleria