Este ano em que tivemos Copa do Mundo, o futebol voltou a ocupar o centro da paisagem visual brasileira. Bandeiras reapareceram nas ruas, camisas tomaram os espaços públicos, antigas partidas retornaram à televisão e imagens históricas voltaram a circular. Mas a relação entre o futebol e a memória brasileira atravessa diferentes temporalidades, das grandes mobilizações em torno da Copa do Mundo às experiências do dia a dia.

Mesmo quem não acompanha o esporte costuma guardar alguma lembrança ligada a ele. Uma rua ocupada por crianças improvisando traves, a decoração da vizinhança durante uma Copa, uma camisa herdada, uma fotografia de família, uma narração que atravessa gerações. Muitas dessas recordações chegam até nós primeiro como imagens.

O futebol ocupa um lugar singular na cultura brasileira porque produz memória coletiva através da experiência visual. Ele está nos estádios, na televisão, nos jornais, nos álbuns de figurinhas, na publicidade e nos objetos do cotidiano. Ao longo do século XX, essa presença também encontrou espaço na produção artística brasileira.

Quando aparece na arte, o futebol raramente se limita à celebração esportiva. Ele pode registrar transformações sociais, narrar formas de convivência urbana, elaborar lembranças de infância ou investigar questões de movimento, corpo e representação. Cada artista encontra no jogo algo diferente, mas todos trabalham sobre um terreno comum: um repertório visual já compartilhado por milhões de brasileiros.

 

Futebol, 1936 – Francisco Rebolo

Reprodução Fotográfica Romulo Fialdini
Futebol, 1936
Francisco Rebolo – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.

Em 1936, Francisco Rebolo pinta Futebol, um clássico da arte nacional e do futebol paulista que, à primeira vista, pode parecer apenas uma cena esportiva. Em campo, um jogador branco e um jogador negro disputam um lance da partida. A imagem, porém, carrega bem mais do que um registro do jogo. Rebolo havia sido jogador profissional e observava aquele universo de dentro de suas transformações.

Nas décadas de 1920 e 1930, o futebol brasileiro atravessava disputas em torno da profissionalização, processo que encontrou resistência entre setores das elites esportivas, mas que ampliou as possibilidades de participação para jogadores negros e trabalhadores. Nesse contexto, essa pintura ultrapassa a representação de uma partida específica e se aproxima de um registro de seu tempo.

O que hoje pode parecer uma cena comum guardava, naquele momento, mudanças profundas na composição social do esporte. A obra preserva visualmente uma experiência histórica que ajudou a moldar o futebol brasileiro, transformando um lance de jogo em memória de um processo mais amplo de inclusão, conflito e mudança social.

Futebol Fla-flu, 1975 – Djanira

Foto de Ricardo Bhering
Futebol Fla-flu, 1975
Djanira – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.

Algumas décadas depois, Djanira oferece outra possibilidade de olhar para o futebol. Artista ligada ao modernismo brasileiro e frequentemente associada à arte naïf, ela leva o esporte para o centro de sua produção sem abrir mão de uma linguagem visual própria.

Em sua representação de um clássico do futebol brasileiro, o Fla-Flu, o jogo transcende a temática e nos é apresentado como problema de composição. Os blocos de cor, a organização dos jogadores no espaço e o equilíbrio entre as formas revelam uma construção cuidadosa da cena. O aspecto mais singular da obra, porém, está no ponto de vista escolhido pela artista.

Em vez da visão lateral com a qual estamos acostumados a acompanhar partidas, Djanira desloca o olhar do espectador para dentro do campo. A cena é observada a partir da região do gol, como se estivéssemos sob a trave acompanhando a jogada que se aproxima. Essa escolha altera a experiência da imagem e aproxima a pintura de uma memória compartilhada por torcedores e espectadores: a expectativa do lance decisivo, o instante que antecede o gol.

Djanira utiliza a partida como ponto de partida para investigar formas de traduzir visualmente a dinâmica do jogo. Nessa operação, o futebol é apresentado tanto como acontecimento quanto como experiência perceptiva.

Se em Djanira o futebol é construído a partir da experiência do olhar, em Portinari ele se aproxima da memória.

Futebol, 1935 – Portinari

Futebol
1935, Candido Portinari – Acervo Projeto Portinari

 Em Futebol (1935), o artista retorna a um universo recorrente em sua obra: a infância vivida no interior paulista. Crianças sem rosto correm em torno da bola sobre a terra vermelha de Brodowski. Ao fundo, casas, animais e um pequeno cemitério compõem uma paisagem que equilibra diferentes dimensões da existência cotidiana. A alegria da brincadeira convive com a presença silenciosa da passagem do tempo.

A ausência de traços individualizados torna aquelas figuras menos específicas e mais universais. As crianças retratadas por Portinari pertencem à sua memória pessoal, mas poderiam habitar as lembranças de inúmeras outras pessoas. O futebol aparece integrado ao cotidiano, associado às formas de convivência, aprendizado e sociabilidade que acompanham os primeiros anos de vida.

Talvez seja por isso que a pintura continue produzindo identificação quase um século depois. Ao representar uma partida, Portinari também mobiliza dimensões da memória coletiva, permitindo que a cena da infância dialogue com as lembranças de diferentes gerações de observadores. Portinari encontra o futebol na memória da infância, Rubens Gerchman o encontra nas imagens que circulam pela vida urbana.

 

Os super-homens, 1967 – Rubens Gerchman

Os super-homens Rubens Gerchman 1967 – Museu nacional de belas artes.

Conhecido por transformar temas populares em matéria de arte, Gerchman dedicou parte significativa de sua produção ao universo do futebol. Torcedor apaixonado, viveu décadas decisivas da história do esporte no Brasil e acompanhou a transformação de jogadores em ídolos nacionais, a consolidação dos grandes clubes e a expansão da cultura de massas em torno do futebol.

Em suas obras, a partida funciona como ponto de partida para investigações sobre a dinâmica visual e social do futebol. Times, jogadores, torcidas, estádios, manchetes e multidões passam a integrar uma mesma visualidade. O futebol surge como um fenômeno cultural amplo, capaz de mobilizar afetos, identidades e formas de pertencimento coletivo.

Ao longo de sua trajetória, Gerchman construiu um extenso repertório de imagens ligadas ao esporte. Suas obras participam da constituição de uma memória visual do futebol brasileiro, articulando personagens, símbolos e experiências que atravessam diferentes gerações.

Reprodução fotográfica autoria desconhecida
O Futebol, Flamengo Campeão, 1965
Rubens Gerchman – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.

Em Rebolo encontramos um momento histórico, em Djanira uma experiência do olhar e em Portinari uma memória afetiva, em Gerchman o futebol aparece como imagem compartilhada em escala coletiva, parte de um imaginário que ultrapassa o campo e passa a ocupar o cotidiano brasileiro.

Ao longo da arte brasileira, o futebol aparece como infância, celebração, experiência coletiva, movimento e memória. Cada artista encontra um caminho diferente para representar o esporte, mas todos trabalham sobre um repertório visual amplamente compartilhado.

Reprodução fotográfica autoria desconhecida
Futebol – Linguagem (Torneio Início), 1967
Rubens Gerchman – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.

No centro desse repertório está a bola, que ultrapassa sua função esportiva e se consolida como uma das imagens mais recorrentes da cultura contemporânea. Sua presença atravessa gerações, classes sociais e fronteiras nacionais. Ela pode remeter a uma partida histórica, a uma brincadeira de rua, a um estádio lotado ou a uma lembrança familiar. Um objeto simples que acumula experiências muito distintas sem perder sua capacidade de ser imediatamente reconhecido.

Colunistas

Victoria Ferreira D’Almeida

É designer gráfica há dez anos e graduanda em História, com interesse especial na visualidade e na arte brasileira. Idealizadora do projeto Brasil Arte e Significado (@brasilarteesignificado) desenvolve análises visuais, críticas e conteúdos que exploram as conexões entre cultura, iconografia e memória. Sua pesquisa atual dialoga com temas decoloniais, interseções culturais e história social a partir das imagens, unindo prática criativa, estudo acadêmico e divulgação cultural.
Victória Ferreira D’Almeida – pesquisadora de História da Arte brasileira e idealizadora do projeto Brasil, Arte e Significado  – @brasilarteesignificado

 

Gilberto Marques

É artista plástico formado pela FAAP (SP), com especializações em Comunicação Social, Marketing, Produção Cultural e Museus. Residente em São José dos Campos (SP), sua obra explora volume e abstração para evocar sensações de espaço, vazio e presença, refletindo sobre pertencimento, tempo, memória e valor. Desde 2028 atua como Curador independente.
Gilberto Marques – artista visual e curador independente – @gilbertomrc / @naruagaleria

 

Possivelmente seja essa a força de sua presença na arte. A bola concentra uma rede mais ampla de imagens, afetos e experiências compartilhadas que ultrapassa a memória de um jogo específico. Nas pinturas de diferentes artistas, sua figura articula uma visualidade que atravessa gerações e participa da construção da memória coletiva brasileira.