O termo naïf — palavra de origem francesa que se traduz literalmente como “ingênuo” ou “inocente” — entrou para o vocabulário da história da arte no final do século XIX. Inicialmente empregado de forma pejorativa pela crítica para classificar a obra do francês Henri Rousseau (1844–1910) e de outros artistas autodidatas que exibiam no Salon des Indépendants, o conceito buscava categorizar criações que se moviam à margem do ensino acadêmico, da perspectiva tradicional e das convenções eurocêntricas do circuito formal. No entanto, o que a crítica do período leu como “falta de técnica” ou “simplicidade” revelou-se uma forma autônoma e singular de construção da imagem. Quando transposto para o contexto brasileiro — marcado por matrizes populares, indígenas e afrodiaspóricas —, o rótulo naïf passa a carregar contradições ainda mais profundas.
Muitas vezes, a etiqueta acaba por deslocar o olhar da obra para a biografia do artista, priorizando origens sociais, étnicas ou o autodidatismo em detrimento das escolhas visuais, formais e poéticas. A partir dessas provocações, esta entrevista com o pesquisador e crítico de arte Oscar D’Ambrosio propõe uma revisão crítica sobre os usos e os limites da categoria.
Sem Título, 1986
Waldomiro de Deus – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.
Ao longo da conversa, D’Ambrosio debate a necessidade de superar o estigma da “ingenuidade”, o risco de apagar as singularidades de mestres como Waldomiro de Deus e José Antônio da Silva sob um mesmo rótulo, e o movimento recente de grandes exposições internacionais — como a Bienal de Veneza — que têm abandonado o termo para evitar o reducionismo biográfico. Mobilizando a perspectiva do filósofo Walter Benjamin sobre “escrever a história a contrapelo”, a discussão ilumina o potencial decolonial da produção de matriz popular: um campo em que o criador deixa de ser objeto para se afirmar como sujeito central de seu próprio repertório e narrativa visual.
A entrevista a seguir foi concedida por Oscar D’Ambrosio a Victória Ferreira D’Almeida para o projeto Brasil, arte & significado (@brasilarteesignificado).
Sem Título, 1985
Waldomiro de Deus
c.i.d. – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.
1-O que acontece quando olhamos para a produção naïf não como uma arte “ingênua”, mas como uma outra forma de construir visualidade?
“Olhar para a arte chamada de naif como algo ingênuo traz uma carga de preconceito muito grande. Não se analisa a obra pela sua composição, formas, cores e maneira de trabalhar, mas pela origem desse artista. Muitas vezes, mergulha-se no fato de ele ser preto, indígena, analfabeto ou sem interesse u condições de estudar formalmente arte, não pela visualidade que o trabalho oferece. Analisa-se a biografia, não a estética.”
Sem Título
Waldomiro de Deus
c.i.d. – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.
2- E se a ausência de formação acadêmica não for uma deficiência da obra, mas uma condição que nos permite reconhecer outras formas de construção da imagem?
“A ausência de formação acadêmica na arte chamada popular não é, de forma alguma, uma espécie de falha, de deficiência. Constitui apenas mais um fator, mais um elemento de análise. Assim como nós analisamos a origem do artista, (1:22) seja ele de matriz popular ou de matriz erudita, devemos olhar os trabalhos visuais pela maneira como essa imagem é construída e não apena pela história de vida e pela narrativa do artista.”
Reprodução fotográfica Romulo Fialdini
Algodoal, 1968
José Antônio da Silva – óleo sobre tela, c.i.d.
65,00 cm x 100,00 cm
Coleção Museu de Arte Moderna de São Paulo (SP) – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.
3- Como essa discussão muda quando pensamos especificamente na arte naïf brasileira e na formação de uma história da arte marcada por referências europeias?
“As leituras da história da arte brasileira são marcadas predominantemente pela origem europeia, mas há as matrizes indígenas e africanas. A palavra naif, que vem do francês, traz a ideia de ingenuidade e, como aponta, por exemplo, Adriano Pedrosa, curador-chefe do MASP, traz uma carga de preconceito que não pode ser ignorada. Mesmo assim, claro, existem aqueles artistas, críticos e curadores que vão defender o termo naif dizendo que ele é utilizado nacional e internacionalmente com relevância. Porém, é importante observar que, quando você pensa nas duas mais recentes Bienais de Veneza (2024 e 2026), por exemplo, em que havia vários artistas de origem popular, a palavra naif não é utilizada nos textos curatoriais. Isso ocorre justamente porque ela conduz a não olhar o trabalho, mas sim a pessoa.”
Reprodução fotográfica Romulo Fialdini
Campos Plantados com Bananeiras, 1956
José Antônio da Silva – óleo sobre tela
70,00 cm x 60,00 cm – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.
4- A classificação “arte naïf” pode acabar reunindo produções muito diferentes entre si e apagando as especificidades culturais, sociais e regionais de cada artista?
“Quando se fala em arte naif, existe um leque imenso que vai desde um Waldomiro de Deus a José Antônio da Silva, passando por artistas como Zezim ou Adão Domiciano, entre muitos outros. Isso aponta para uma reflexão: se a arte chamada naif se caracteriza pela espontaneidade e pelo autodidatismo, cada artista é único e cria o seu estilo próprio, já que os criadores visuais do gênero não trabalham com padrões externos, mas criam os próprios. Então, buscar uma semelhança entre os chamados naifs (3:57) talvez seja, de certa maneira, algo contraditório (4:01) no entendimento de que cada naif é peculiar. Houve inclusive no Brasil algumas tentativas de criar escolas de arte naif, onde se ensinaria as pessoas a pintar nesse estilo. Aí a contradição merece atenção, pois criar uma escola de arte para quem defende que não exista escola de procedimentos criativos é, no mínimo, estranho.”
Foto de Autoria desconhecida
Colheita de algodão, 1948
José Antônio da Silva – óleo sobre tela
50,00 cm x 100,00 cm
Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) – ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.
5- É possível pensar a arte naïf a partir de uma perspectiva decolonial sem transformar todo artista naïf em um “artista decolonial”? Ou seja, onde estaria exatamente o potencial decolonial dessa produção?
“Pensar o artista naif dentro de uma perspectiva decolonial significa pensar o artista de origem popular como aquele que conta a história a contrapelo, como diria o filósofo Walter Benjamin. O criador popular conta a história a partir do seu ponto de vista, sendo protagonista e não objeto dessa história. Nesse sentido, a cultura popular, seja chamada de naif ou não, (pode ser o ponto de partida para um empoderamento e pertencimento de um repertório que o cerca. Trata-se de um processo de olhar para esse repertório, pensar nele e transformá-lo e devolvê-lo ao mundo de uma maneira pessoal, peculiar e significativa, sendo decolonial no sentido de não aceitar a narrativa do colonizador, mas de construir a sua narrativa enquanto colonizado, mesmo que não tenha uma consciência teórica disso. O potencial dessa realização prática é imenso, pois trabalha com a memória afetiva, a realização que cada um atinge com seus materiais, técnicas e suportes, além da imaginação e criatividade.”
Oscar D’Ambrosio
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador (@oscardambrosioinsta).
Colunistas

Victoria Ferreira D’Almeida
É designer gráfica há dez anos e graduanda em História, com interesse especial na visualidade e na arte brasileira. Idealizadora do projeto Brasil Arte e Significado (@brasilarteesignificado) desenvolve análises visuais, críticas e conteúdos que exploram as conexões entre cultura, iconografia e memória. Sua pesquisa atual dialoga com temas decoloniais, interseções culturais e história social a partir das imagens, unindo prática criativa, estudo acadêmico e divulgação cultural.
Victória Ferreira D’Almeida – pesquisadora de História da Arte brasileira e idealizadora do projeto Brasil, Arte e Significado – @brasilarteesignificado

Gilberto Marques
É artista plástico formado pela FAAP (SP), com especializações em Comunicação Social, Marketing, Produção Cultural e Museus. Residente em São José dos Campos (SP), sua obra explora volume e abstração para evocar sensações de espaço, vazio e presença, refletindo sobre pertencimento, tempo, memória e valor. Desde 2028 atua como Curador independente.
Gilberto Marques – artista visual e curador independente – @gilbertomrc / @naruagaleria

